Assim se deu comigo, no decorrer da vida, até meus 39 anos, com relação ao meu pai. Sempre analisei o seu relacionamento comigo e com minha mãe, sob a forte influencia da família dela que realmente não queria saber dele! Era temido por todos.
Às portas dos meus 40 anos, entrei numa forte crise existencial e ao contrário do que senti sempre agora, só queria saber dele. Mas como? Estaria vivo? Aonde? Esse período da minha vida é bonito para mim, embora doloroso e se o fosse relatar agora, jamais chegaria ao ponto onde quero chegar depressa (o aeroporto, lembra?)
Fiz mil manobras, sem a ajuda de quem quer que seja e cheguei a minha tia, a irmã mais nova dele. Essa tia, por toda sua vida, julgava-se a maior vítima do que foi feito com ele. Ela e minha avó controlavam tudo da vida dele com relação a minha mãe e a mim, inclusive a correspondência que vinha de Portugal para minha mãe, era recebida por elas e entregue já aberta, pois vinha sempre dentro do mesmo envelope em que vinham as cartas para elas.
A interferência da família dele na vida dos meus pais foi responsável pela separação de ambos e pela animosidade que surgiu entre o casal.
Quando fui procurá-la, sabia que poderia ter uma grande decepção se ela não fosse sincera comigo, escondendo mais uma vez tudo sobre ele e obstando o que eu precisava saber para encontrá-lo. Mas, desta vez foi tocado o seu coração e ela me falou tudo.
Depois de hora e meia de conversa entre nós, sem se tocar no nome dele, ela me perguntou: Aidinha, você não quer saber nada do seu pai?
Meus olhos não seguraram as lágrimas e apenas disse – quero, mas tenho medo.
Ela, adivinhando a resposta que eu temia, respondeu – ele está vivo.
Aí, foram lágrimas de alívio e alegria. Foi um sentimento como o de se recuperar um tesouro perdido, ou encontrar a salvação diante de uma ameaça.
Ela me disse onde ele estava e porque estava tão escondido. Estava na Libéria, escondido da Interpol e de Salazar. De posse do seu endereço, imediatamente escrevi a ele uma longa carta contando tudo da minha vida e perguntado muito sobre ele.
A reposta chegou no dia 29/06/1973, dia de São Pedro e São Paulo, por um emocionado telegrama, ressalto, enviado para minha tia, que de pronto me ligou e leu-o para mim. Foi uma choradeira geral, nunca ninguém acreditou no sucesso dessa minha busca.
AGORA EU TINHA PAI!!!

Resgatei a cura para o mal que havia dentro de mim e que, antes disso, nunca tinha conseguido identificá-lo. Foi uma cura de alma!
Agora, passando ao largo de tudo quanto aconteceu nesses seis meses de correspondencia, chego aos 23/12/1973, quando ele chegou a nossa casa.
Até então, esse homem era um mito para os meus filhos e para os mais da família, que não o conheceram e tão pouco conseguiam entender o que realmente aconteceu. Daquele momento em diante, ele passou a ser uma pessoas como outra qualquer.
Era o meu pai e o vovo.
Quando ele não me deixou ir até lá, dizendo que ele viria porque assim poderia ver a todos, fui tomada por uma tremenda angustia, com medo de que ele fosse pego aqui, pois vivíamos os nossos duros anos de chumbo e seu nome, sem duvida, figurava, ainda, na lista negra dos inimigos do nosso regime.
Ele não me disse nada a respeito de como viria! Eu imaginava mil artifícios dos quais ele lançasse mão para chegar aqui, são e salvo, até que chegasse de carroça a nossa porta, disfarçado, com uma possível entrada por outro país sul americano, pensei mil coisas, mas não atinava!
No dia 23/12/74, como já falei, lá estava ele, dentro da nossa casa. Entrou tranquilamente pelo Rio de Janeiro e em voo doméstico veio para São Paulo.

Passadas as primeiras 48 horas nas quais eu apenas fiquei olhando para ele, boquiaberta, registrando todos os seus movimentos, suas falas, sua postura, tudo, consegui me recuperar de tanta felicidade.
Daí, era minha vez de interromper, perguntar, contar, comparar, lembrar datas, pessoas, fatos, enfim a nossa vida atrasada durante 36 anos de separação.
E perguntei, então,como ele conseguiu entrar com tanta facilidade no Brasil, sem ser minimamente molestado.
Calado, foi buscar seus documentos e mostrou-os a mim. Não era Cypriano da Cruz Affonso, mas JOSÉ REBELLO. Que coisa incrível como aquilo me incomodou! E ele me disse – o que é que tu querias, que eu arriscasse a pele mais uma vez e tentasse entrar aqui com minha verdadeira identidade? Filha, seria preso no ato e talvez voces nem me vissem mais! Concordei, claro, mas o documento perfeito me impressionou. Mais uma pergunta, para saber como ele havia conseguido aquela falsa identidade, ao que me surpreendendo mais uma vez, riu à vontade e disse: eu mesmo a preparei. Era de um amigo meu, que quando veio a falecer, a sua família me deu todos os documentos dele, exatamente para uma necessidade como a que tive agora.
É! Coisas de companheiros, sem dúvida! Pensei.
Bem, agora já estava aqui e pronto! Nada de ficar encucada com “pormenores” de somenos importância...rsrsrs
Passamos um Natal maravilhoso e cheio de emoções.
Já tínhamos combinado de em seguida viajar para Vitória, onde alugamos uma casa em Vila Velha, num morro, linda, frente para o mar. Todo mundo fez a cabeça dele e ele acabou cedendo e foi também conosco para lá. Porem impôs uma condição, porque iríamos de carro e ele achou que era muito a enfrentar. Mil quilômetros espremido num carro, bagagem, criançada, paradas, não. Voces vão na frente e eu vou com a minha filha de avião, fazemos os nossos horários de um jeito que quando lá chegarmos vocês estejam no aeroporto a nossa espera.
Muito bem. Todo mundo achou ótimo.
Enfim eu teria umas horinhas sozinha com meu pai e poderiamos falar pelos cotovelos!
Foi o que fizemos.
Embarcamos em Congonhas com destino ao Galeão. Lá, fizemos o nosso check-in, despachamos a bagagem e, tranquilos, enquanto esperávamos o embarque para Vitória, pudemos papear.
Nesse dia, o Galeão estava tão cheio, que no saguão onde esperávamos, todo mundo estava espremido. Não seria possível abaixar-se normalmente, para pegar do chão algo que caísse, pois na certa, com o efeito cascata derrubaríamos um monte de gente. Ali, era um vozerio, misturado a todos os demais ruídos próprios do lugar e quem quisesse conversar, como nós, tinha mesmo que prestar atenção ao seu interlocutor. Nós dois, sempre falantes, naquela oportunidade, não deixamos por menos. Passado algum tempo, que nem sei precisar quanto, percebi que o saguão já estava mais vazio. Ué! Disse ao papai: será que esse avião não sai hoje? Que demora! Acho melhor irmos ao balcão perguntar o que está havendo.
Ao chegarmos lá o funcionário pegou a passagem do papai e disse: A! Então o senhor é o seu José Rebello que cansamos de chamar pelo alto falante! O senhor não ouviu? Foram umas quatro ou cinco vezes que o chamamos. Nós nos entreolhamos, uma vontade enorme de cair na risada, porque ele, o espertinho, se esqueceu que era José Rebello. Eu tinha obrigação de me ligar? O falsificador era ele! Quem estava usando documentação falsa era ele, então ficasse atento! É muito natural que Cypriano não atenda a chamada por José... Mas nós não perdemos a pose diante da turminha que queria nos ajudar a solucionar o problema que tínhamos agora.Não faz mal disse o papai. De fato não ouvimos a chamada, talvez pelo barulho, desculpe, mas agora já estamos aqui. O funcionário respondeu, mas o avião não está mais, foi embora, não podia atrasar tanto!
Aí, a nossa cara de paisagem, deve ter causado pena em todos que estavam ali por perto e começaram as sugestões. Era uma sexta feira. Próximo avião para Vitória só na segunda. Não havia telefone celular, a casa não tinha telefone e o único meio de comunicação se quiséssemos avisá-los, seria por telegrama. Alguém disse: porque vocês não vão de teco-teco? O papai estava atrás de mim, e logo a voz dele no meu ouvido, numa frase arrastada:- filha é “pirigoso!”. Fala um, fala outro, resolvemos ir de taxi. Foram mais umas 5, ou 6 horas de estrada e quando chegamos, todos já estavam deitados, mas dormir não conseguiam!
Era uma enorme preocupação sem saberem o que teria acontecido a esses dois patetas. A gozação dura para sempre. Até hoje não posso viajar de avião sozinha que logo vem a recomendação: -ve se vai ficar de papo lá com alguém e perder o avião, como fez com seu pai hein?! Nunca mais se esqueceram dessa mancada! Isso acontece para quem erra, mas fazer o que? Errar é humano.
Curti mais essas abençoadas horinhas com ele, falamos a viagem toda.
Sentado ao lado do motorista, ficava todo torto, virado para trás, segurando a minha mão.
Tudo que deve acontecer entre um pai e uma filha, de dezembro de 73 a abril de 74, vivi intensamente com ele. Inclusive nos desentendiamos quando ele queria fazer a minha cabeça, para que eu me filiasse ao partido comunista. Aí dava briga, porque por esse idealismo desmedido, é que eu e meus irmãos (filhos de outras duas mães), não o tivemos conosco.